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Moda e Cinema – A visualidade: além e aquém das palavras

A Partida, de Yojiro Takita

O Ponto Vermelho, de Marie Miyayama

Hanami – Cerejas em Flor, de Doris Dorrie

Tomemos as narrativas fílmicas dos filmes “A partida” (Okuribito, Dir. Yojiro Takita, Japão, 2008) em cartaz no cinema HSBC; “O ponto vermelho” (DER ROTE PUNKT, Dir. Marie Miyayama, Alemanha, 2008) ainda inédito no circuito comercial, exibido Mostra de Cinema-2009; e “Hanami – Cerejas em flor” (Kirschblüten – Hanami, Dir. Doris Dorrie, Alemanha-França, 2008), em cartaz no espaço Unibanco da Augusta. Eles recortam temáticas que se que entrecruzam. Nos três filmes, as pausas suspensas do tempo: a gestualidade e o silêncio valem mais do que as palavras e diálogos. São obras sensíveis e dramáticas que abordam de maneira peculiar os rituais do cotidiano: comer, dormir e viver. Nos três filmes não existe uma preocupação com cortes rápidos, mas o tempo da contemplação, da meditação. As passagens entre a vida e a morte, das diferenças culturais entre o oriente e o ocidente, abordam o tema da família como vinculo afetivo e os casulos do corpo: velho e novo, estático e em movimento.

A amizade, a memória e as recordações redesenhadas no presente, passado e futuro, das passagens do tempo e espaço. Como resgatamos na morte aquilo deixado na vida? Como sentimos a ausência da presença de uma pessoa querida que já morreu? Como desfrutar os momentos essenciais da vida? Relembrando o filme de Bergman, “O sétimo Selo” em que a morte vem dialogar com um cavaleiro medieval jogando uma partida de xadrez. Nos filmes em questão o tema da morte é trabalhado de maneira muito mais complexa e deixa marcas nos corpos e nas almas.

As vestimentas: a materialidade da memória

No filme “A partida”, o morto passa por um ritual de purificação: recebendo o último banho do agente funeral contratado pela família, ele é vestido com suas roupas, seus acessórios, penteado e maquiado na frente de seus parentes, deixando-o com uma boa aparência para ser recebido numa outra dimensão. Já no filme “Hanami – Cerejas em flor”, a relação com as vestimentas também traz a memória afetiva e presentifica metafisicamente a imagem do corpo que está ausente. Como se a roupa pudesse fazer o outro reviver os momentos por sua materialidade: cor, caimento, desgastes, texturas e cheiro do dono.  Assim, o personagem Rudi já na terceira idade e com pouco tempo de vida, ao perder a sua companheira, Trudi de um longo casamento, encontra-se sozinho. Os seus filhos cresceram e são egoístas demais para abdicar de suas vidas para cuidar do pai. Em vida, a sua mulher abandonara o sonho de ser dançarina de Buthô em prol do casamento e dos filhos. Lembrei-me do livro que li em 2004: “O Casaco de Marx. Roupas, memória, dor”, de autoria de P. Stallybrass que revela trajetória que o casaco de Karl Marx indo e vindo do corpo de seu dono à loja de penhores é refletida na obra “O Capital”. A memória que o casaco carrega e a relação do seu dono com o mesmo acabaram por gerar reflexões sobre consumo, valor dos bens de consumo e a relação deles com as pessoas.

No filme “Hanami – Cerejas em flor”, o personagem, na ausência de sua mulher vai viver alguns momentos a partir das suas vestimentas cotidianas. Assim dentro de uma pequena mala ele carrega para o Japão todos os pertences que vão corporificar a presença-ausência da esposa morta: fotos, um livro, um colar, um casaco azul, uma saia de bolinhas pretas e um robe de seda. Como se as roupas estivessem impregnadas de suas memórias pessoais e afetivas. Então, ele experimenta as roupas femininas, no seu corpo masculino e vai “mostrando a cidade” às suas roupas, como se um pedaço dela estivesse ali. As roupas vão muito além das palavras, no seu silêncio, transportam todas as nossas narrativas, memórias e afetividades.  Assim, a materialidade da memória afetiva está aprisionada nas nossas roupas.

Sites de pesquisa:
http://www.youtube.com/watch?v=uqiMLQPJUKA
http://www.departures-themovie.com/
http://www.mostra.org/

Colaboração de Jô Souza

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Moda e Cinema: O Acossado

O cineasta francês Jean-Luc Godard desconsiderou as formas convencionais de fazer cinema em O Acossado (À bout de souffle), de 1959. Apontado como um marco, o filme abriu as portas da Nouvelle Vague.  Em seu primeiro longa-metragem, o diretor utiliza uma narrativa fragmentada, não linear, focada no imediatismo dos personagens, com um senso do realismo de “aqui e agora”; contraponto à forma tradicional do cinema clássico norte-americano.

Essa ruptura na maneira de comunicar acontece no momento em que as transformações culturais na França ganhavam força de mobilização de uma contracultura jovem. O foco passa a ser o individual, com vista à transformação social coletiva, mudanças que irão culminar nos movimentos de maio de 68. O cinema passa a ser livre e pessoal, desapegado de qualquer tipo de “amarra social”. A forma de contar a história é mais importante do que a própria história. No cinema, na música, nas roupas, o espírito jovem contracultural começa a se assentar nos anos 60.

Uma interessante forma de pensar a relação entre cinema e moda é atentar para os personagens principais do filme: Patricia Franchini (Jean Seberg) e Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo).  Ela, uma bela estudante universitária. Ele, um espertalhão foragido da polícia. É no non-sense dos diálogos do casal, nem tão apaixonado, que a incompatibilidade de seus mundos se mostra presente. Mas isso é o que menos importa. Tanto Patrícia quanto Michel estão interessados no presente. Os personagens falam com a câmera, trazendo uma nova forma de comunicação com o público. As cenas muitas vezes dão a impressão de serem cortadas na metade; quem assiste tem uma sensação de maior interação com a história que está sendo contada.

Os personagens Patricia Franchini e Michel Poiccard em cena clássica do filme O acossado

O figurino dos personagens lançou moda nos anos 60. Patrícia vestia uma calça cigarrete preta e uma blusa de malha amarela com os dizeres do jornal em que trabalhava: New York Herald Tribune. Menina moderna em suas atitudes, tinha os cabelos loiros muito curtos que lhe completavam o visual. Norte-americana de origem, trabalhava e estudava em Paris, relacionava-se com vários homens e não usava soutien, atitudes que condiziam com o corte ousado e refletiam as condições de seu tempo. Estava sempre muito preocupada com a aparência. Gostava de saia de pregas, blusa listrada e vestidos. Um de seus looks é inspirado em Dior, o que mostra forte influência dos anos 50. Em um dos diálogos, Patrícia pede a Michel que lhe compre um vestido Christian Dior. Ele lhe responde que um comprado em uma loja de departamento teria a mesma qualidade.

A personagem Patricia Franchini trajada com o look inspirado em Dior

Michel Poiccard traja óculos escuros, terno, gravata e chapéu, lembrando filmes de gângters norte-americanos dos anos quarenta. O figurino de seu personagem é claramente inspirado em Humphrey Bogart; a ligação com o tipo “valentão” é um recurso utilizado para dar-lhe credibilidade. Michel é alguém que vive de maneira a aproveitar o presente, sem dar muita importância às conseqüências. Temos a impressão de que sua vida vai se desenrolando ao acaso: o crime que comete é um acontecimento aleatório. Para ele, são as circunstâncias que fazem o momento, enquanto age de forma veloz e perspicaz, sem deixar de lado seu humor ácido. Mesmo em todas as suas peripécias, está preocupado com a sua aparência.

Michel Poiccard: figurino inspirado em Humphrey Bogart. Fonte imagens: http://www.imdb.com

A Nouvelle Vague possibilitou uma nova forma de comunicação nas artes que atingiu e transformou efetivamente a vida de grande parte da população européia, fato este que refletiria mundialmente. As formas de entender e relacionar-se com o masculino e o feminino não seria mais a mesma a partir dos anos 60. A diferenciação, a individualidade, a luta por direitos e mudanças começam a se fazer ouvir: são as reinvindicações dos jovens definidos como faixa etária distinta.  Muitas portas começam a ser abertas com o estabelecimento de uma cultura juvenil, com novas possibilidades de pensar o corpo em relação com o traje como canal de comunicação, inserido nas transformações sociais que o rodeiam.

Maíra Zimmermann

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