Moda como lugar comum

Posição social vantajosa sempre foi ostentada. A ostentação não seria exatamente para que o outro visse, mas para marcar diferença, manter o outro no seu lugar. Pessoas faziam-se distintas de outras pessoas na medida em que portavam aparatos diferenciadores: joias, bengala, cachimbo, maquiagem, etc. O expediente mais distintivo, contudo, sempre foi o de vestir. Certas cores, por exemplo, eram exclusivas de determinados estamentos sociais. Na Idade Média, aos nobres eram reservadas algumas, ao clero, outras; ao povo, as proibições..

Etiqueta
Na época, os encontros de salão tinham rigorosa etiqueta. Estava estabelecido quem poderia sentar-se e quem não poderia; quem poderia dirigir-se a quem. Portavam-se anéis com brasão, perucas, saltos, polainas, pó-de-arroz, ruge. E se excedia no vestir-se. A roupa era aparatosa exibição. Tudo sob luzes, esforço de distinção. Era o exercício da identidade. O anúncio dos que chegavam, com nome e títulos, demarcava e elevava sua condição. Poucos e bem identificados os que podiam essas coisas; muitos e indiferenciados os lacaios em servidão.

Os donos do poder
Nas periferias dos lugares, ao redor dos castelos, nas viagens de aventura e negócio, nos assaltos de estrada, na pirataria, no domínio de ofícios, foi despontando gente que aprendeu a ganhar dinheiro fora do sistema. Genericamente, a essa gente chamou-se burguesia. Os burgueses enriqueceram, compraram terras, títulos e se vestiram. Ao espalhafato dos nobres, contrapuseram o comedimento, o comportamento reprimido, a roupa sóbria. Depois, na França, puseram nobreza e clero a correr. Eram, agora, os donos do poder. Criaram o mundo dos negócios, investiram em tecnologia, aumentaram a produção, geraram empregos, amontoaram pessoas. A cidade virou aglomeração e, nela, vicejou um iníquo sistema de exploração.

Todos, ninguém
Luta de classes, revoltas: direitos; escola, tecnologia: vida em melhor condição; saúde, longevidade: reprodução. Sociedade de massa. Todos são ninguém. Ninguém se distingue e os valores são distribuídos pelos meios de comunicação. Sustentando tudo isso, a lógica do sistema de produção. Há que empregar todo mundo, que produzir, que vender. Tudo feito em quantidade, rápido e para descartar. A vida foi acelerada e o mundo – e tudo nele – ficou efêmero. E a moda? Não é mais, parece, distinção. É forma de mostrar pertinência a grupos. É um lugar comum..

Democracia
Poucos se suportam como identidade. Raramente se aprecia um eu que não se dissolva nos outros. Não existo porque sou, mas porque estou inserido em um bando que se veste igual, que anda do mesmo jeito, tem suas próprias falas. Há comunidades na internet, há ídolos de adoração, há pesquisas de opinião. Parece que nada é mais democrático do que atender às pesquisas de opinião. Se a moda era elitista e distinguia, agora se pergunta o que a massa quer e se lhe serve, gerando satisfação.

Valores
Que não pareça que estou nostálgico de um tempo de nobreza, clero e exclusão. Desprezo estes valores, meu gosto é, antes, iluminista. Mas me parece lastimoso a vestimenta copiada do sujeito da televisão, o traje de marca, a procura desmedida por algo que pareça, ainda que grosseira falsificação. E mais uma coisa: os ricos sofisticados, para quem não sabe, compram em loja sem vitrine, preferem roupa não identificada e levam a vida longe das modas de multidão.

Artigo publicado no jornal Notisul: www.notisul.com.br

Colaboração de Léo Rosa

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