A Forma e a Fome

A modelo Jennifer Hawkins, capa da Marie Claire australiana:revista traz curvas em resposta a excessiva magreza

Devido ao intenso debate que vem sendo realizado sobre a excessiva magreza feminina, não apenas das modelos, ressalto, na mídia, publico hoje um artigo que produzi há três anos atrás nas circunstâncias da morte por anorexia da modelo Carolina Reston.

Apenas algumas observações. Uma das fontes que pesquisei para redigir o artigo foi um site pró-anorexia, ou seja, um espaço utilizado para defender a doença. Felizmente, três anos depois, já não é tão fácil encontrar um espaço desse tipo na rede – não que eles não existam, mas chegar até eles é mais complicado por estarem bloqueados, ou exigirem senhas de acesso.

Alguns periódios tem lançados campanhas que procuram mostrar o que seria a mulher “real”. Creio que esse passo é um grande avanço, porém, não deixo de levar em consideração a necessidade de um debate sobre o que de fato seria uma mulher “real”. Mas toda essa conversa já é tema para um outro artigo…

A FORMA E A FOME

As revistas destacam, apenas, modelos magérrimas. Em desfiles, manequins exibem a mesma silhueta famélica. Suas estampas servem ao intento de oferecer determinado produto a certo público. No fim das contas, estão servindo a um propósito: cabides para a criação de algum estilista. Para o modelito cair bem, o instrumento de exposição deve ser magro. Ou alguém já viu um cabide gordo?

Para quem não pertence ao mundo fashion, tudo parece glamouroso, envolvido em magia. A senha para adentrar esse universo é a magreza. Estamos imersos numa sociedade que associa felicidade à estética. Prevalece o mito de que sem a magreza plena a mulher não será feliz. Essa ilusão tem levado milhares de meninas a desafiarem o limite da condição física. Cada vez mais jovens cumprem um ritual auto-destrutivo em busca de um padrão promovido pela mídia. Essa perfeição, que nunca será alcançada, acaba tornando-se o foco obsessivo de um distúrbio alimentar, seja a bulimia, a anorexia ou o comer compulsivo.

Na internet encontram-se espaços dedicados a enaltecer essas enfermidades, sites pró-ana e pró-mia (‘ana’ é o apelido de anorexia e ‘mia’, o da bulimia). Jovens em todo o planeta defendem-nas com fervor religioso e tratam-nas como meta de vida. Trocam confidências, dietas malucas, truques para enganar a família, de comer algodão para perder a fome e vomitar. Muitas dessas meninas nem se consideram doentes, defendendo que a “anorexia é um modo de vida e não uma doença”. Valorizam a magreza como objetivo único:
 “Ser magra vai fazer meus sonhos virarem realidade. Acordo e mal faço o básico, aproveito e subo na balança, não acredito! Pego a fita métrica, como é possível? Após um dia inteiro de no food, só ter emagrecido meio quilo? Não como, bebo apenas um copo de água e saio. Minha rotina inclui a contagem de calorias, ocupam boa parte do meu tempo e de minha vida, cada dia é uma pequena vitória, quando você menos esperar, a comida não vai mais te fazer falta. Ficarei magra, serei feliz, enquanto isso levo minha vida de dieta em dieta. Se isso é vida? Não sei, deixo para pensar nas conseqüências quando estiver magra, nada mais me importa. Se incomoda as pessoas? Tanto faz, no fundo todos querem ser magros! A diferença é que fazemos por merecer, pois um dia magras e felizes seremos, só depende de nós” (http: //anamylife.zip.net/).

Trancadas por si mesmas em seus quartos, adolescentes constroem uma realidade ficcional, idealizada, baseada em ídolos esquálidos. Vida virtual, condenada a nunca sair da tela do computador, paradoxo de solitárias em grupo. Deixam de viver suas próprias vidas. Encontram na doença uma causa e uma fuga e a transformam em sua melhor amiga.

Infelizmente, foi necessária a extremidade de casos de morte para que um assunto de tamanha importância viesse a debate público. Não só no mundo da moda, mas também dentro dos lares impõem-se tomar decisões. As passarelas valorizam a estética de uma doença, muitos pais ignoram que as filhas estão doentes. A disfunção imagética atrelada ao transtorno é um problema de causas psicológicas, familiares, fisiológicas, genéticas e sociais e não afeta apenas modelos, podendo acometer qualquer pessoa, principalmente se mal-estruturada, fragilizada, exposta a valores equivocados tratados como verdades. Na falta de uma existência que cultive o relevante, jovens definham em meio à abundância de comida. É a vitória frívola da ode à magreza.

Maíra Zimmermann

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1 comentário

Arquivado em Como? Ideias de moda

Uma resposta para “A Forma e a Fome

  1. muitooo legall adorei o texto era tudo que precisava bjsss!!!!

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