Pretty in Pink

Geisy Arruda e intepretações de sua foto divulgadas na internet: o vestido rosa como burca e a Boneca Geisy: já vem com jalequinho, diz a legenda

A menina acometida na Uniban virou um estilo. Combinando uma atitude sensual com uma roupa provocativa, digamos um vestidinho curto, justo e de cor vibrante, você pode estar à la Geisy.

A história de Geisy Arruda cresceu e ultrapassou em muito o tamanho de seu (nem tão curto) vestido. Diz-se por aí que esse evento parece muito suspeito, e, certamente, ela já aprontara alguma na Faculdade para que reagissem com tanta violência. Possível, mas não provável.

Então, ela teria bolado uma incrível jogada de marketing para aproveitar-se dos (imprevisíveis) 15 minutos de fama. Difícil, hein? Era quase impossível presumir os resultados de um plano “vou-mostrar-minhas-pernas-e-dominar-o-mundo”. Nem o publicitário mais brilhante seria capaz de prever tal estrondo.

O que aconteceu depois, se ela está colhendo frutos dessa exposição – fez plástica, vai fazer campanha de lingerie, sair na Playboy –, isso é o que menos importa. Usando os mesmos meios de comunicação que a julgaram ora vítima, ora culpada, Geisy está agora se fazendo estrela.

O mais alarmante neste caso é justamente aquilo que gerou seu estopim: o moralismo de uma juventude que se acredita livre. Depois que nossos pais fizeram a revolução sexual dos anos 60 e 70, e tantas barreiras comportamentais foram quebradas, muitas vezes à força, era de se esperar que certos códigos morais estivessem um pouco mais frouxos.

Porém, por meio do traje, Geisy ousou quebrar a linha que divide dois mundos: o ambiente, teoricamente, formal de uma faculdade e o universo lúdico de uma balada (para onde ela estaria indo), sinônimo de displicência e liberação.  Seu vestido comunicava sexualidade em um lugar onde ela não deveria ser manifesta. A turba sentiu-se no direito de açoitá-la pela simples insinuação de sua pele que, por códigos sociais, não deveria ser tocada, não ali.

Voltamos, então, aos anos 20, quando o visual à la garçonne escandalizava os mais tradicionais. A historiadora Maria Claudia Bonadio, em seu livro Moda e Sociabilidade, nos conta uma passagem da Revista Feminina (de fevereiro de 1929): um editorial assinado por Ana Rita Malheiros comemorava a iniciativa da religião que começara a lutar contra a moda, que “de arte do vestir, está aos poucos se transformando em arte do despir”. A jornalista constatava que ao aderir aos caprichos da moda, a “mulher honesta” perdia o direito de exigir respeito para consigo.

Aos olhos da multidão, Geisy, difundindo uma moda provocativa, queria mesmo era tentar. Não se deu o devido respeito e pagou por isso, não agiu como uma “mulher honesta”.

Em conversa com algumas pessoas, já ouvi que Geisy estava à procura de alguma coisa. Concordo. Sou levada a crer que nem ela sabe bem o quê. Atenção talvez. E quem não busca abismar ou ser notada quando levanta de manhã e escolhe uma roupa no armário? Seja um sobretudo ou uma saia de 30 cm. O vulgar de uns, pode ser o sexy de outros.

Para ler: Moda e sociabilidade:  mulheres e consumo na São Paulo dos anos 1920, de Maria Claudia Bonadio. Editora Senac São Paulo.

Maíra Zimmermann

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1 comentário

Arquivado em Como? Ideias de moda

Uma resposta para “Pretty in Pink

  1. Cris Garbelotto

    Adorei a burca rosa…rsrsrsrs.
    Incrível como uma roupa pode fazer uma mulher deixar de ser “honesta” aos olhos da sociedade.
    E as pessoas ainda acham que moda é só futilidade!!!! Não percebem o quanto comunicam com suas escolhas no vestir.

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